4 de setembro de 2026 · Colunista de política
A manobra dos jabutis: como temas desconexos pegam carona em medidas provisórias
Entenda como emendas parlamentares sem relação com o texto original do Executivo são aprovadas de forma acelerada e sem debate.

O processo de criação de leis no Brasil envolve diversas etapas e discussões, mas o Executivo possui um mecanismo para acelerar urgências. Trata-se da medida provisória, um instrumento que ganha força de lei assim que é publicado, trancando a pauta do Congresso Nacional se não for votado em um prazo estipulado. É justamente essa urgência que atrai a atenção de parlamentares em busca de atalhos para aprovar pautas próprias.
No jargão político de Brasília, convencionou-se usar uma expressão peculiar para descrever uma tática comum durante a tramitação desses textos. A manobra consiste em adicionar emendas que não guardam qualquer relação com o assunto original da proposta. Dessa forma, temas complexos ou polêmicos pegam carona em um texto que precisa ser aprovado rapidamente, burlando a necessidade de uma discussão aprofundada nas comissões temáticas.
O que são os jabutis medidas provisórias?
A expressão deriva de um antigo ditado popular que afirma que, se um jabuti está em cima da árvore, foi enchente ou mão de gente. No contexto do Congresso, a árvore é o texto original enviado pelo governo federal, enquanto o animal representa a emenda parlamentar desconexa. O objetivo principal dessa inserção é evitar o longo caminho de um projeto de lei comum, que tramita lentamente e exige amplo consenso.
Quando os parlamentares inserem os jabutis medidas provisórias, eles aproveitam o fato de que a matéria precisa ser votada antes de perder a validade. Isso cria uma pressão temporal sobre o plenário, forçando a aprovação de um pacote fechado. Muitas vezes, os congressistas votam o texto principal e acabam aprovando junto as emendas intrusas, que regulamentam interesses específicos de setores isolados.
A ausência de discussão no processo legislativo
A principal crítica a essa manobra reside na falta de transparência e de debate público. Um projeto de lei regular passa por diversas audiências, recebe pareceres técnicos e permite a participação da sociedade civil. Ao pegar carona em um texto de urgência, a emenda parlamentar salta todas essas etapas e chega diretamente para a decisão final no plenário.
Essa prática compromete a qualidade da legislação brasileira, pois aprova regras que não foram devidamente analisadas quanto aos seus impactos econômicos ou sociais. A pressa para evitar que o texto do Executivo caduque faz com que os parlamentares fechem os olhos para as adições feitas de última hora, consolidando alterações legais que pegam a população de surpresa.
Como os jabutis medidas provisórias afetam as políticas
O impacto direto dessa estratégia é a criação de leis fragmentadas e, por vezes, contraditórias. Uma proposta que originalmente tratava de crédito extraordinário para desastres naturais pode terminar o trâmite perdoando dívidas de um setor empresarial específico ou alterando regras ambientais. O assunto original serve apenas como um veículo de transporte ágil para interesses que dificilmente avançariam por conta própria.
Muitas vezes, a população só toma conhecimento dessas alterações quando o texto final ganha destaque na cobertura da imprensa nacional, momento em que a proposta já aguarda a sanção ou o veto presidencial. O chefe do Executivo, por sua vez, enfrenta o dilema de vetar o trecho intruso e correr o risco de ter o veto derrubado pelo Congresso, ou sancionar tudo para garantir a parte que realmente importava ao governo.
Limites jurídicos e a continuidade da tática
A inserção de temas alheios ao escopo original já foi alvo de questionamentos judiciais no país. O entendimento jurídico predominante aponta que as emendas parlamentares precisam ter afinidade temática com a proposta inicial. Caso contrário, a alteração é considerada inconstitucional, pois desvirtua a finalidade do instrumento de urgência.
Apesar das decisões judiciais contrárias a essa prática, a dinâmica política faz com que a estratégia continue sendo utilizada. Os relatores das propostas costumam argumentar que as emendas possuem alguma ligação indireta com o tema, forçando interpretações amplas para justificar a inclusão. Assim, a disputa entre o que é urgente para o país e o que é conveniente para grupos específicos segue moldando a produção de leis no cenário nacional.